ARTE POP: Quantas porções de arte, para quantas
porções de pop
Ainda é confuso juntar duas palavras como “arte” e “pop”. Falo “ainda”, porque isso não é nem mesmo produto do nosso tempo. Estamos mais para um tempo de “esgotamento” dessa prática (se a intenção é fazer algo novo), do que de invenção por esse caminho. Mas, mesmo assim, o assunto ainda dá pano para algumas discussões.
A “Arte Pop” já está bem além da “Pop Art” do american way of life do fim da década de 50. O gancho com o texto “Marie Antoinette de Sofia” cabe bem, por nele esses elementos de fato ainda inovarem a perspectiva do filme; mesmo em um momento em que juntar elementos comerciais a elementos artísticos já não é mais exatamente uma novidade. O peculiar nesse caso surge da mistura desses elementos com outro tipo de mito, o histórico, e da possibilidade de jogar com as expectativas de quem está assistindo ao filme.
Enquanto na “Pop Art” de Andy Warhol ele misturava esses elementos com figuras de mitos criados pela mídia, como Marilyn Monroe; Sofia Coppola colocou suas cores pops em um outro tempo, quebrando as expectativas desses elementos e possibilitando o jogo de como a sociedade inventa mitos e personagens a todo momento.
Uma questão interessante da "Arte Pop" hoje é que, diferente do que aconteceu na “Pop Art” das décadas de 50 e 60, agora não é mais a arte que quer se popularizar, usando elementos da publicidade e da mídia para isso, mas o contrário: as mídias de propaganda que têm aspirado ao status de arte, num intento audacioso de expandir ainda mais os conceitos já delicados do que é arte. Isso fica exemplificado na figura dos publicitários hoje, por exemplo. Volta e meia, encarados como artistas bem dotados e, por vezes, contratados pela indústria do cinema para cuidar exatamente da direção de arte dos filmes. Outro exemplo disso são as cerimônias de entrega de prêmios anuais de publicidade, das quais os trabalhos vencedores têm saído com um certo prestígio de obras de arte.
Não estou puxando o cordão da crítica aos publicitários, mas, se é pra falar de “Arte Pop” hoje, não há como não fazer essa distinção e não lembrar o caminho que ela está tomando agora. A publicidade sempre se dedicou à sedução e ao apelo visual, mas nunca esteve tão bem preparada para isso, tomando emprestadas nessa tendência as experiências e o prestígio da arte. Uma conseqüência boa é a chuvarada de boa imagem que nos cai aos olhos quando o assunto é propaganda. Mas, por outro lado, há a questão do excesso, e o excesso corrompe sempre. A imagem é bonitinha, mas já são muitas, a todo momento e em tudo, e isso desgasta a tudo globalmente também.
Esse jogo “arte” e “pop” tem virado então uma gangorra de pesinhos. Se pesar a mão para um lado, será Pop; para outro, Arte. Artista então vai ser aquele que conseguir pesar bem a mão para a arte, sabendo aproveitar os recursos da cultura pop também (a seu tempo); e “profissional inventivo” (um recurso para não chamar de artista o publicitário) vai ser aquele que melhor souber usar os elementos da arte da imagem para desenvolver a personalidade visual do produto. Um exemplo disso é a imagem de um calendário promocional italiano da Coca-cola, em que o publicitário substituiu a imagem da Monalisa no quadro pela imagem de uma coca-cola.
Sem eximir o Pop de nada, os elementos pops estão aí e vão além de docinhos bem embalados, são marcas sociais e culturais de uma vida de consumo, e que, por sua plasticidade, podem assumir características antes específicas das artes. Mas isso é só uma capa de proteção, são de fato para consumo e resta bem mais a quem consome do que a quem produz não se saturar desses docinhos.