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LIRISMO: Se o mundo é só o lado de fora,

de que lado você está?

 

Não podemos matar o lirismo por inteiro, sob risco de morrermos juntos com ele também. Nos resta pensar novos lirismos e escapar do tédio das repetições.

 

A eterna insistência do eu-rei faz de todo lirismo uma possível farsa. Algumas charmosas (às vezes é charmoso falar de si), mas o lirismo, pelas próprias semelhanças entre os homens, sempre esteve às beiras com o piegas. Mas que graça teriam as coisas sem a visão dos líricos? Que graça mesmo teria a própria literatura? A música? Toda estória, verdade ou mentira... O lirismo tem seu charme e bem por isso nunca vai morrer. É parte humana como o próprio “eu” e escapa pelos lados quando nos movemos. Quando se produz, quando se expressa, há ainda mais possibilidade de transbordar “eus”. E esta é a questão: os “eus”.

 

Quantos “eus” saem de nós quando viramos o assunto do que dizemos? Quantos “eus” surgem ao sermos líricos? Falar de si não é afastar-se de si também? Perguntinhas difíceis que quase nos fazem dar uma resposta corrida e rápida. Mas não são perguntas para respostas. Pense no lirismo. Você é lírico? Já foi alguma vez? Já pegou um pedaço de qualquer coisa e se viu colocando nele coisas que achava que eram você? É um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor... A dor que deveras sente? É real o “eu” de que falamos dele? O “eu” que construímos... E que mundo é este em que o “eu” está?

 

A pena é cair numa criação imaginária de possibilidades de “eus” e de “mundos” alucinados. Nada a perder, não fosse a desmedida de todos esses mundos criados terem centro sempre num mesmo “eu”, como se o mundo inteiro existisse apenas como complemento de quem se expressa. Para onde vai isso? Que lirismo eu quero ver? Quero ver lirismos, disso eu sei. Mas qual... quais? Sant’anna certa vez (2003) criticou o “lirismo envergonhado”: Introduziu-se na poesia brasileira há algumas décadas a síndrome do lirismo envergonhado. É uma coisa assas estranha... 

 

Mas mesmo nesse lirismo envergonhado, ainda há poesia, talvez a poesia do escondido... Há lirismo também na fuga do lirismo, de tanto que ele está por aí, de tanto que não é possível fugir dele. Perder o lirismo é morte, mas comedi-lo (se a outra opção for o excesso ridículo) pouco de mal há nisso; bem pelo contrário, há muito de bem em guardar do mundo as melhores coisas e saber dosar delas. O lirismo nunca abandona a fala do homem, tá sempre latinando por dentro. O lirismo avergonhado tem riquezas que só entendem aqueles que sabem brincar das brincadeiras mais demoradas. Quer dizer, queria pensar assim.

 

Mas, para tudo, é necessário ter estilo, o seu pode ser o do anverso, o da longura, o do romantismo suicida, nem vou contestar. Mas que já dá nos nervos a psicose do perdido no mundo, do cheio de dúvidas e carências e arrombos, ah dá. Somos também o que manipulamos ser, as nossas escolhas por não-ser também são partes de nós. Todos os segredos que guardamos são também pedaços nossos e, mais ainda, somos esses pedaços, porque os guardamos.

 

Todo mundo sempre vai sentir coisas novas, nem que seja uma nova sensação de atravessar o velho, de ver o velho querer se repetir diferente, transmutado, corrompido. Então como fazer isso?

 

Deu vontade de se expressar? (o texto até parece ter saído com tom de chamado ao lirismo, apesar das críticas). Pois faça isso. Portas-abertas! Mesmo o envergonhado...



Escrito por Patrícia Dourado às 01h25
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Perfil

Patrícia Dourado, 24 anos.

Apresentação do trisco

O trisco não é um diário, é um cantinho para textos.

A função é reunir textos e ter, de quebra, alguém com rosto azul de tela de computador para ler. Falar de tudo é o lema, mas só o tudo que me interessar. Se escapulir coisa de diário, é porque todo texto fada ao autoral mesmo.

Os assuntos daqui talvez dessem pano para muito mais manga, mas, como o veículo é a internet e não é nada profissional, o melhor é ficar tudo no condensado mesmo, um trisco.

Mesmo sendo o intento escrever de tudo, esse tudo talvez teime em ir para assuntos de Cinema. A sorte é que Cinema sempre envolve outros mil assuntos. Então, vamos lá, que seja divertido!

 

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