Aratuba é fim da linha
Aratuba não é cidade-passagem, não é caminho para canto nenhum a não ser para ela mesma. Ninguém tem de passar por lá para ir à outra cidade. Lá só chegam aqueles que realmente já tinham Aratuba como destino, a última cidade da serra.
Nem por isso se instalou nela uma comunidade hippie ou alternativa ou qualquer coisa assim, os moradores são idênticos aos de qualquer outra cidade do interior, os mesmo costumes: calçada, praça, igreja... Mas a cidade tem a peculiaridade de não ser uma cidade de interior macaqueada de grande cidade. Não tem aquela loucura de motos e feiras e armarinhos e bodegas por todo canto, comum ao Cariri, por exemplo. Também não se corrompeu como uma cidade serrana de veraneio, como Guaramiranga e outras do Maciço de Baturité e seus vários festivais nada locais, embora fique na mesma serra.
Aratuba tem seus funcionamentos próprios. Tem partidos de esquerda e direita, incomum a uma cidade tão pequena. Os estudantes participam das decisões, são pouco ouvidos (como em quase todo lugar), mas participam, são do contra, do partido de oposição ao prefeito (que, nem de longe, é um mau prefeito coronélico como os das outras cidades).
Os estudantes fazem barulho nas festas às sextas e aos sábados na praça da igreja (aos domingos, não. Guardam os domingos de festa). Descem as escadarias correndo, dançam, tocam violão, cantam, mas, curiosamente, (embora adolescentes) nenhuma gota de bebida nem trago de cigarro na boca. E não são poucos.
Alguns moradores têm as casas mais distantes do centro da cidade (pequeno centro) e, por isso, experimentam viagens quase todo dia, para ir à escola - os mais jovens. Já, à medida que vão envelhecendo, esses que moram mais longe pouco vão saindo dos limites verdes do sítio. Quando muito, para a missa de domingo, quando a saúde ainda permite. Por isso mesmo há uma ambulância 24h que fica estacionada na praça, lembrando que, a qualquer hora, um desses aratubenses mais antigos, moradores de sítios, podem passar mal. Nessa mesma praça, há também uma biblioteca pública, de onde, sentada na praça, podia ver a sobra das pessoas que liam lá dentro. Era mais uma peculiaridade.
Não há hotéis, apenas 2 hospedarias razoáveis (olho na telha, sem forro), para quem veio fazer algum trabalho na cidade ou motoristas de ônibus que sempre dormem no fim da linha dos trajetos. Foi numa dessas que fiquei.
Aratuba é fim da linha. E Fortaleza (2 ou 3 horas de lá, não mais) para eles é uma cidade bem longe, muitos nunca fizeram esse trajeto. E, pensando assim... por que fariam?
*Esse papo-furado todo tem um propósito, quero fazer um filme sobre Aratuba.