Depois da fama com a pirataria (ironicamente), Tropa de Elite (2007) tem dispensado apresentações. Mas nada como assistir no cinema. Sala de cinema cheia às 23h20 no primeiro dia de estréia. A pirataria também tem seu apelo publicitário. E a sensação foi algo que ainda não tinha experimentado. Um titanic, um senhor dos anéis, um homem aranha... mas com outra busca, uma outra ânsia, uma ânsia diferente.
Essa foi a melhor forma de entender o sucesso de Tropa de Elite. É um filme, só um filme, e brasileiro. Tudo bem que tem distribuição da Universal Pictures, mas nada que chegue próximo do investimento milionário que é fazer de um titanic um titanic. É nessa que entra o apelo publicitário da pirataria no pré-lançamento do filme e a tal “ânsia” de que falei buscar a platéia (platéia essa que, acho, só os brasileiros realmente podem entender). Sem tirar os méritos da produção oficial.
Jabor chamou o filme de “videoclipe jornalístico”, e eu não discordo dessa definição para o discurso visual do filme. Isso é marca que já se podia adivinhar em o Ônibus 174 (2002), também de José Padilha. A questão é que se pode fazer de tudo (de bom ou ruim) e, ainda assim, ser bom no final, ser original. Não porque pensou algo que ninguém havia pensado antes (que isso não existe mais), mas porque soube reunir isso em algo verdadeiro. A união sensível de pedaços alheios faz o que é seu. Foi assim com Tropa de Elite.
É comum ouvir entusiastas falando “aquilo é a pura verdade”. Antes fosse, assim teríamos descoberto já toda a “pura verdade” e, pronta, era só levar pro tribunal e fechar a sentença. O diretor, a produção e os atores já se esforçaram como podiam pra desmentir esse clamor: “não, não, é ficção - pura ficção”. Mas, para algumas pessoas, parece que ser ficção faz perder a graça, então elas não aceitam acreditar nisso. Beleza. E o que essa “verdade” tem a ver com a “ânsia” que eu tinha falado antes?
A platéia ansiava assistindo ao filme por algo que o imaginário já construíra faz tempo com todo nosso histórico de insegurança: que um símbolo de testosterona, um machão, em quem se pudesse confiar completamente, aparecesse para vingar todos nossos temores com a violência, e isso seria ainda mais purgador se fosse, também, através da violência. Não havia como nosso imaginário vingativo (o coletivo) ser de outra forma.
Não importa se a cena é cruel, se o que está rolando na tela é tortura, é direito de defesa e direitos humanos no chão, o clima é de felicidade a cada saída de uma cena de tortura ou morte, é um “põe na conta do papa” ecoando. Tropa de Elite veio mais uma vez falar de violência, mas ninguém duvida que o discurso ideológico (sempre há um discurso ideológico) dessa vez é diferente. Não tem acerola e laranjinha, a galera boa do morro não apareceu e até os universitários da ONG na favela não passam de hipócritas alienados, falando de uma engraçada tal de “consciência social”. Confesso, ridícula, que ainda me identifiquei com esses universitários e saí, por essa, meio tonta. Quer dizer, ainda estou.
Fica a pergunta, Tropa de Elite construiu um herói (policial do Bope) para o povo identificar como salvador; ou o próprio povo, carente de heróis e de mais um monte de coisa (e, com a pirataria, podemos falar realmente em “povo”) anda, por isso, identificando o capitão Nascimento (Wagner Moura) com um herói salvador? Alerto que essa minha idéia de “povo” é declaradamente influenciada pelo conceito genial de “povo” que minha afilhada de 10 anos deu pra mãe dela: “...povo é o povo que sofre, mãe”.
Não riam. Isso é sério.
Há duas questões sobre a repercussão desse filme que eu queria, sinceramente, entender melhor: ele teria a repercussão que teve se não fosse a pirataria? E, se todo filme é a “promoção de uma idéia” (com controle ou não disso), que idéia esse filme promove e qual a repercussão dela? Estou realmente perguntando, isso não é só um teste de discurso.