Bem, a idéia é meio atrevida, mas achei legal a relação. Há duas personagens femininas curiosas de relacionar e pensar um pouco sobre como as mil mulheres de verdade levam a vida. São só duas personagens; e os comportamentos femininos, não precisaria nem dizer, são infinitos a cada virada de esquina. Ou seja, o mote pode ser bom.
São pontos de partida desse mote a “femeazinha emancipada” da novela Um Copo de Cólera (Raduan Nassar, 1978) e as “mulheres-evas”, para quem a escritora Clarice Lispector deu conselhos em crônicas reunidas no livro Correio Feminino (Clarice Lispector, 2006).
Na novela Um Copo de Cólera, o ponto de vista é de um homem perturbado pela relação que tem com todas as coisas da sua vida e, entre elas, a mulher (a expressão “coisas”, aqui, não foi acidental). No Correio Feminino, logo depois de se separar do marido, usando pseudônimos, Clarice dá conselhos, a outras mulheres, sobre como elas deveriam se comportar para despertar e manter o interesse dos homens.
A escritora, para fundamentar o tipo feminino que diz ser aquele que os homens procuram e o qual as leitoras da coluna deveriam se dedicar a ser, organiza (com desenvoltura literária que deixa transver a grande escritora que é) uma lista de comportamentos e cuidados que a mulher deve ter, a partir da idéia de que “Os homens detestam mulheres que se destacam... Por uma questão de vaidade masculina, não lhes é agradável ficar ofuscados ou relegados a um plano inferior”. Para ela, esse é o caminho natural do homem na escolha da mulher: escolher aquelas que não abalam sua segurança, em nenhuma questão. Embora (ela alerta) nem sempre seja por essas que eles realmete se apaixonem, mas sim as que eles vão “aprendem a amar”, o que ela julga ser o mais importante para as leitoras do correio feminino.
Essa teoria poderia ajudar a entender também a construção de uma outra personagem, aversa e cronologicamente posterior a esta do ideário de “mulher-eva”; aquela que o narrador-personagem do Copo de cólera vai esbarrar e chamar (xingar) de “femeazinha emancipada”. É com ela que o personagem vai bolar “nas unhas das palavras”, mas essas unhas são na verdade só a ponta dos conflitos que rodeiam os dois.
O conflito do Copo de cólera é o preço de não ter a segurança de que Clarice falou buscarem os homens. O homem do Copo de cólera está instável pela quebra do controle que era aguardar por uma mulher guiada pela facilidade de uma lista de comportamentos e convenções sociais (a “mulher-eva”). A mulher do Copo de cólera arriscou a insanidade e as aparentes incoerências de seguir os instintos e não apenas um manual de atitudes. A mulher que o inconsciente dele procurava, para a segurança de macho, rasgou o manual e paga com a própria sanidade o atrevimento de viver dos instintos. Isso só poderia criar um embate delicioso de ler, uma ficção capaz de instalar o leitor em um embate vivo e atordoante. Enquanto o Correio Feminino de Clarice aproxima a mulher de uma experiência de anulação quase cômica em busca de um tipo estranho e discutível de equilíbrio e paz.
Bem, a paz é um bom preço, haja ver quem se contente a pagar esse preço, ainda mais em assuntos de literatura.
Os tipos e comportamentos femininos são só o cume de outros mil conflitos, dentro e fora da literatura, um mote já pronto e costurado pela história das discussões intermináveis, na tentativa de aproximar de qualquer entendimento as atitudes femininas - a caixa de categorias mais diversas que a literatura pode consultar e a imaginação humana pode se meter a entender.
Dá para compreender, por esse embate, porque, para alguns homens, às vezes, parece mais fácil (seguro) optar pela felicidade barata do sossego - o caminho natural que faz direcionar quase todas as escolhas racionalizadas demais da vida: a busca do porto-seguro. Mas a busca pura e simples por essa paz engessada só não consegue ser mais medíocre pela existência dos dias de caos que normalmente antecedem a busca da paz, e esses dias de caos têm por isso a intensidade de uma afinação.
Quem tem sangue é difícil ter qualquer prazer que dure com a vida de gelo do sossego. Talvez por isso o homem-do-copo-de-cólera comece e termine a história com “A Chegada” e sempre volte para o território dos sentimentos onde ele pode ver o amor mais vivo: na cólera. Mesmo morando afastado do mundo, em um sítio, este quinhão do mundo ele não quer perder.
Talvez pelo mesmo motivo a mulher se renda às farpas da convivência e se vista do avesso para estar dentro da roupa certa, talvez por esse mesmo amor mais vivo ela também negue a paz limitada de só ser sempre um porto-seguro ou uma abstração para os fracos. Talvez seja este o caminho para escolher os fortes, como quem olha os dentes e imagina a mordida para escolher um cavalo. Não que queira ou precise que ele morda, mas é preciso ver antes os dentes para escolher o cavalo que levará para casa.