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Ou um copo de cólera ou um copo de paz
Bem, a idéia é meio atrevida, mas achei legal a relação. Há duas personagens femininas curiosas de relacionar e pensar um pouco sobre como as mil mulheres de verdade levam a vida. São só duas personagens; e os comportamentos femininos, não precisaria nem dizer, são infinitos a cada virada de esquina. Ou seja, o mote pode ser bom.
São pontos de partida desse mote a “femeazinha emancipada” da novela Um Copo de Cólera (Raduan Nassar, 1978) e as “mulheres-evas”, para quem a escritora Clarice Lispector deu conselhos em crônicas reunidas no livro Correio Feminino (Clarice Lispector, 2006).
Na novela Um Copo de Cólera, o ponto de vista é de um homem perturbado pela relação que tem com todas as coisas da sua vida e, entre elas, a mulher (a expressão “coisas”, aqui, não foi acidental). No Correio Feminino, logo depois de se separar do marido, usando pseudônimos, Clarice dá conselhos, a outras mulheres, sobre como elas deveriam se comportar para despertar e manter o interesse dos homens.
A escritora, para fundamentar o tipo feminino que diz ser aquele que os homens procuram e o qual as leitoras da coluna deveriam se dedicar a ser, organiza (com desenvoltura literária que deixa transver a grande escritora que é) uma lista de comportamentos e cuidados que a mulher deve ter, a partir da idéia de que “Os homens detestam mulheres que se destacam... Por uma questão de vaidade masculina, não lhes é agradável ficar ofuscados ou relegados a um plano inferior”. Para ela, esse é o caminho natural do homem na escolha da mulher: escolher aquelas que não abalam sua segurança, em nenhuma questão. Embora (ela alerta) nem sempre seja por essas que eles realmete se apaixonem, mas sim as que eles vão “aprendem a amar”, o que ela julga ser o mais importante para as leitoras do correio feminino.
Essa teoria poderia ajudar a entender também a construção de uma outra personagem, aversa e cronologicamente posterior a esta do ideário de “mulher-eva”; aquela que o narrador-personagem do Copo de cólera vai esbarrar e chamar (xingar) de “femeazinha emancipada”. É com ela que o personagem vai bolar “nas unhas das palavras”, mas essas unhas são na verdade só a ponta dos conflitos que rodeiam os dois.
O conflito do Copo de cólera é o preço de não ter a segurança de que Clarice falou buscarem os homens. O homem do Copo de cólera está instável pela quebra do controle que era aguardar por uma mulher guiada pela facilidade de uma lista de comportamentos e convenções sociais (a “mulher-eva”). A mulher do Copo de cólera arriscou a insanidade e as aparentes incoerências de seguir os instintos e não apenas um manual de atitudes. A mulher que o inconsciente dele procurava, para a segurança de macho, rasgou o manual e paga com a própria sanidade o atrevimento de viver dos instintos. Isso só poderia criar um embate delicioso de ler, uma ficção capaz de instalar o leitor em um embate vivo e atordoante. Enquanto o Correio Feminino de Clarice aproxima a mulher de uma experiência de anulação quase cômica em busca de um tipo estranho e discutível de equilíbrio e paz.
Bem, a paz é um bom preço, haja ver quem se contente a pagar esse preço, ainda mais em assuntos de literatura.
Os tipos e comportamentos femininos são só o cume de outros mil conflitos, dentro e fora da literatura, um mote já pronto e costurado pela história das discussões intermináveis, na tentativa de aproximar de qualquer entendimento as atitudes femininas - a caixa de categorias mais diversas que a literatura pode consultar e a imaginação humana pode se meter a entender.
Dá para compreender, por esse embate, porque, para alguns homens, às vezes, parece mais fácil (seguro) optar pela felicidade barata do sossego - o caminho natural que faz direcionar quase todas as escolhas racionalizadas demais da vida: a busca do porto-seguro. Mas a busca pura e simples por essa paz engessada só não consegue ser mais medíocre pela existência dos dias de caos que normalmente antecedem a busca da paz, e esses dias de caos têm por isso a intensidade de uma afinação.
Quem tem sangue é difícil ter qualquer prazer que dure com a vida de gelo do sossego. Talvez por isso o homem-do-copo-de-cólera comece e termine a história com “A Chegada” e sempre volte para o território dos sentimentos onde ele pode ver o amor mais vivo: na cólera. Mesmo morando afastado do mundo, em um sítio, este quinhão do mundo ele não quer perder.
Talvez pelo mesmo motivo a mulher se renda às farpas da convivência e se vista do avesso para estar dentro da roupa certa, talvez por esse mesmo amor mais vivo ela também negue a paz limitada de só ser sempre um porto-seguro ou uma abstração para os fracos. Talvez seja este o caminho para escolher os fortes, como quem olha os dentes e imagina a mordida para escolher um cavalo. Não que queira ou precise que ele morda, mas é preciso ver antes os dentes para escolher o cavalo que levará para casa.
Escrito por Patrícia Dourado às 10h41
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TROPA DE ELITE de José Padilha:
desespero popular bem empacotado
Depois da fama com a pirataria (ironicamente), Tropa de Elite (2007) tem dispensado apresentações. Mas nada como assistir no cinema. Sala de cinema cheia às 23h20 no primeiro dia de estréia. A pirataria também tem seu apelo publicitário. E a sensação foi algo que ainda não tinha experimentado. Um titanic, um senhor dos anéis, um homem aranha... mas com outra busca, uma outra ânsia, uma ânsia diferente.
Essa foi a melhor forma de entender o sucesso de Tropa de Elite. É um filme, só um filme, e brasileiro. Tudo bem que tem distribuição da Universal Pictures, mas nada que chegue próximo do investimento milionário que é fazer de um titanic um titanic. É nessa que entra o apelo publicitário da pirataria no pré-lançamento do filme e a tal “ânsia” de que falei buscar a platéia (platéia essa que, acho, só os brasileiros realmente podem entender). Sem tirar os méritos da produção oficial.
Jabor chamou o filme de “videoclipe jornalístico”, e eu não discordo dessa definição para o discurso visual do filme. Isso é marca que já se podia adivinhar em o Ônibus 174 (2002), também de José Padilha. A questão é que se pode fazer de tudo (de bom ou ruim) e, ainda assim, ser bom no final, ser original. Não porque pensou algo que ninguém havia pensado antes (que isso não existe mais), mas porque soube reunir isso em algo verdadeiro. A união sensível de pedaços alheios faz o que é seu. Foi assim com Tropa de Elite.
É comum ouvir entusiastas falando “aquilo é a pura verdade”. Antes fosse, assim teríamos descoberto já toda a “pura verdade” e, pronta, era só levar pro tribunal e fechar a sentença. O diretor, a produção e os atores já se esforçaram como podiam pra desmentir esse clamor: “não, não, é ficção - pura ficção”. Mas, para algumas pessoas, parece que ser ficção faz perder a graça, então elas não aceitam acreditar nisso. Beleza. E o que essa “verdade” tem a ver com a “ânsia” que eu tinha falado antes?
A platéia ansiava assistindo ao filme por algo que o imaginário já construíra faz tempo com todo nosso histórico de insegurança: que um símbolo de testosterona, um machão, em quem se pudesse confiar completamente, aparecesse para vingar todos nossos temores com a violência, e isso seria ainda mais purgador se fosse, também, através da violência. Não havia como nosso imaginário vingativo (o coletivo) ser de outra forma.
Não importa se a cena é cruel, se o que está rolando na tela é tortura, é direito de defesa e direitos humanos no chão, o clima é de felicidade a cada saída de uma cena de tortura ou morte, é um “põe na conta do papa” ecoando. Tropa de Elite veio mais uma vez falar de violência, mas ninguém duvida que o discurso ideológico (sempre há um discurso ideológico) dessa vez é diferente. Não tem acerola e laranjinha, a galera boa do morro não apareceu e até os universitários da ONG na favela não passam de hipócritas alienados, falando de uma engraçada tal de “consciência social”. Confesso, ridícula, que ainda me identifiquei com esses universitários e saí, por essa, meio tonta. Quer dizer, ainda estou.
Fica a pergunta, Tropa de Elite construiu um herói (policial do Bope) para o povo identificar como salvador; ou o próprio povo, carente de heróis e de mais um monte de coisa (e, com a pirataria, podemos falar realmente em “povo”) anda, por isso, identificando o capitão Nascimento (Wagner Moura) com um herói salvador? Alerto que essa minha idéia de “povo” é declaradamente influenciada pelo conceito genial de “povo” que minha afilhada de 10 anos deu pra mãe dela: “...povo é o povo que sofre, mãe”.
Não riam. Isso é sério.
Há duas questões sobre a repercussão desse filme que eu queria, sinceramente, entender melhor: ele teria a repercussão que teve se não fosse a pirataria? E, se todo filme é a “promoção de uma idéia” (com controle ou não disso), que idéia esse filme promove e qual a repercussão dela? Estou realmente perguntando, isso não é só um teste de discurso.
Escrito por Patrícia Dourado às 15h14
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ERA UMA VEZ NO OESTE de Sérgio Leone
Bem, não tem ninguém me obrigando a escrever ou mesmo algum prazo estabelecido que tenha de cumprir, então só escrevo para o Trisco quando rola de estar muito afim. Também não sou nenhuma aficionada compulsiva que acha que tem de escrever, porque tem de escrever, porque tem... As dicas do Rilke aos jovens poetas não colam comigo. Ainda mais porque não são bem poemas o que circula por aqui. Então é assim, ando demorando muito entre um post e outro, porque nada anda mexendo muito comigo, sem crise. Fora que ando com uma preguiça sem nome de ver filme, ou seja, tá difícil unir o útil ao agradável.
Mas semana passada assisti Era uma vez no oeste (1968) e achei ideal para trazer pra cá, agora que ando sem muita vontade de ver filme como também de escrever. A verdade é que ele NÃO vale uma crítica. Toda besteira que pensei em escrever sobre esse western, deu em alguma coisa muito fajuta na frente do que é cada cena dele. E o mais curioso é que eu pensava mesmo em descrever exatamente as cenas, já que era o mais legal do filme, então já viu, ia cair num trabalho inútil.
Então olha que doido, acabei abrindo um post pra falar que NÃO VOU FALAR DO FILME, mas que vocês, mesmo assim, vejam. Podem dizer: “boa". Aconteceu que já foi alguém que me indicou esse filme e que, mais ou menos, tentou descrever uma cena dele pra mim, mas depois percebi que, desse filme, é meio loucura contar as cenas assim. Acaba que as pessoas que assistirem ao filme depois vão achar tua descrição ridícula.
Mas, para não ficar só no papo-furado total e não falar nada do filme (pra criar um gostinho) e também para um de vocês me chamar de ridícula depois, vou descrever (curtamente) aquela que é a minha cena preferida do filme. Bom lembrar que se trata de um western muito macho, e para machos. Mas, ironicamente, é desse filme uma das personagens mais femininas que já vi no cinema, a Sra. McBain (foto). O diálogo da cena acontece enquanto a Sra. McBain está deitada na cama com o assassino do seu marido (mais um machão) que pergunta, com a mão enfiada no meio das pernas dela e abismado com o prazer que ela parece estar sentindo: “A senhora é mesmo capaz de tudo pra continuar viva, não é?” E ela responde forte, séria, mas sem parar de parecer que está sentindo muito prazer: “Sou, acredite”.
Acabei de estragar minha cena preferida, mas vejam o filme todo e estraguem pra alguém a cena preferida de vocês. O filme inteiro é uma seqüência de cenas arrumadas como se arrumam cenas para serem imortalizadas, bem por isso é um clássico, não só do western, mas do cinema todo.
Podia falar ainda da música, dos atores, da fotografia, da história que envolve vingança, honra e disputa, mas isso tudo é muito ordinário na frente da experiência, ao mesmo tempo forte e divertida (“ao mesmo tempo” mesmo), de assistir a Era uma vez no oeste. Odeio parecer baba-ovo de qualquer filme, ainda mais agora que ando meio fraca para filmes, e esse texto já tá ficando com cara disso. Melhor acabar aqui.
Escrito por Patrícia Dourado às 15h08
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I still believe in Paradise
"I still believe in paradise,
because it’s not some place that you can look for,
because it’s not where you go...
It's how you feel for a moment in your life,
when you are a part of something.
And if you find that moment, it lasts forever”.
(The Beach)
Vida alternativa, universo paralelo, mundinhos particulares, misticismo, religião, embriagues! Quem nunca tentou a segunda via? O mundo foi lá em cima, falou em futurismo, acho que o futuro seria uma robô-cinética desenfreada e achou que isso seria bom. Já ouvi quem dissesse “Nada de ter filhos, não vou colocar mais um nesse mundo cão”. Ok, bom pensamento. Quem não acredita neste mundo, cão, que não ponha mais ninguém nele mesmo, entendido: uma via.
Ouvi esta semana também uma professora que comentava a intenção de morar fora da cidade e “levar uma vida auto-sustentável”. Achei uma idéia curiosa, mas que inicialmente não me seduziu. Como assim? E o trabalho e a vida e aquela sensação louca de achar que está produzindo alguma coisa (ou pelo menos se preparando pra isso)? Colégio, faculdade, trabalho, turma de amigos, aqueles tropeços casuais... nada disso me veio a mente na “vida auto-sustentável” de que ela falava.
Ela então me explicou sobre um bairro ecológico, semelhante às ecovilas de São Paulo e Curitiba, que está sendo construído no Eusébio. Bem, o Eusébio não é tão longe. Pelo que entendi, como as ecovilas, são bairros residenciais que tem por base a construção e a manutenção não-poluente. Hum. Mas e o fluxo humano? Tudo bem ser minimamente poluente, mas quantas pessoas vão estar nesses bairros, há socialização ou só interação com a natureza? Nossa! quanta desinformação! A parte mais interessante foi pensar em sair do trabalho e chegar em casa, uma casa que não seja só um lugarzinho a alguns quarteirões do trabalho. Como ter dois mundos separados e não exatamente paralelos, com toda dualidade comum e necessária à maioria dos seres humanos. Embora não pensemos muito sobre essas necessidades...
Bacana o misto dos extremos e essa idéia de trabalhar na cidade (continuar a se estoporar de vida agitada) e saber que, bem acolá, há a sua casa, à espera, me pareceu uma idéia bem legal. Pensar na casa como de fato um recanto para onde ir e de onde sair todos os dias me pareceu uma idéia agradável. Até o caminho a se fazer todos os dias entre esses mundos me pareceu de uma rotina agradável (bem, foi o que senti com a rápida imagem mental que fiz depois de processar melhor a idéia). Todos os dias indo e vindo entre os dois mundos, a casa e o trabalho. Ah, gostei.
Talvez, depois de algum tempo, eu cansasse, é um risco. Mas, não sei, como ela falou, são bairros, não exatamente sociedades apartadas. Esse que está sendo construído é o primeiro – bairros com organizações diferentes dos bairros onde moramos hoje, tá certo. Mas seria uma boa experiência, haveria mais pessoas com a mesma idéia, uma idéia de comunidade para o século XXI (às vezes acordo tão positiva – escrever às 6 da manhã dá nisso)! Eu bem queria muito que desse certo e realmente gostei da notícia de saber dessas coisas por aqui.
O mundo tem suas organizações, ao mesmo tempo coletivas e individuais. E, no individual, está principalmente o “direito” de escolha. Bem ou mal, somos nós que trilhamos nossos caminhos e fazemos nossas escolhas. Se o mundo em que posso acabar pondo mais uma criança é um mundo cão, isso é muito pelas minhas escolhas também. Bem, acredito no paraíso! como um lugar qualquer que a gente elege (mesmo que por um tempo) como paraíso. Se o paraíso pode ser minha casa, pelas minhas escolhas, melhor ainda. Essa história toda me lembrou do filme A Praia (2000), que gosto particularmente e por isso acabei revendo ontem.
Viver em sociedade sempre vai ser uma questão delicada, mesmo que a sociedade seja pequena (ou até pior, se for). Quem assistiu A Praia deve saber do que estou falando. Mas é quase impossível não pensar em novas formas de se organizar socialmente sempre, como também já não é mais tão fácil ignorar os distúrbios das nossas relações egoístas com o planeta e com a questão ambiental, o “auto-sustentável” tem tido seus conceitos alargados e incorporados à prática. Bairros assim são opções válidas, pelo menos enquanto construímos (descobrimos) novas formas de viver. E se não for, pra que existe a marcha-ré? Vamos em frente, não deu certo: ré e mudança de caminho. Tentar a segunda via, em tudo, é um troço bem humano.
Escrito por Patrícia Dourado às 09h36
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EXTERMÍNIO 2
Não era meu intento publicar nenhum texto aqui que fosse de crítica negativa a algum filme. Mas, como faz tempo que não assisto a algum que valha uma crítica (positiva), o tiro vai sair pela culatra e vou falar mal do Extermínio 2. Não é de todo mal - melhor dizer isso logo, a proposta era de dar algum crédito ao filme: o fato de ser uma “continuação” do Extermínio (otimistas como eu dão crédito a isso). Mas, infelizmente, não fosse pela história, este filme pouco teria a ver com o Extermínio de Danny Boyle (diretor de Cova Rasa, Trainspotting, A Praia e produtor executivo desse filme).
As primeiras cenas do filme eram de intenção pronta e dita de causar uma espécie de euforia violenta. Mal eram mordidos, os novos "infectados" já começavam imediatamente a atacar (sem nem o corpo morrer antes, quase como se fosse uma situação de possessão, um virar de olho). Muito sangue, muito grito, câmera de mão enlouquecida etc... Recursos, ao meu ver, de apelação total para parecer moderninho (falei como uma nojenta agora).
Continuo.
A música é a mesma do primeiro, o que também quase me fez acreditar que daria certo, mas como pensei nisso? É outro filme, então como assim a mesma música? Isto mesmo que você está pensando: as imagens não casaram com a música. Era outro filme, estilo diferente (bem diferente), outra história também, por que daria certo? Teria de ter um feeling muito bom para fazer isso com harmonia; o que não aconteceu. Muitas cenas, que eram para ser de uma tensão enorme, acabaram por dar em cenas de tensão nenhuma, como quando o casal de irmãos recebem do pai a notícia de que a mãe está morta. Além da estranha feição dos irmãos, a situação se agravou com a música destoante.
Outra cena bem exemplar disso é quando o casal de irmãos protagonistas saem para pegar uma fotografia da mãe na antiga casa (o menino está com medo de esquecer o rosto da mãe) e, para chegar lá, eles passam por uma Londres abandonada e proibida por causa da epidemia, e deveriam sentir medo, pois sabiam que estavam em uma área infestada. Se não fosse uma situação de terror (imagine sua cidade devastada e sua mãe morta) seria bem interessante a sensação de “dono do mundo” em meio a tudo deserto, mas não era o caso. Ver o menino gritando “esta cidade é minha, toda minha” não era bem o que eu poderia chamar de harmonioso.
O argumento que eles utilizaram para a “continuação” era bom e válido. O primeiro se desenrolava “28 dias depois” de estourada a epidemia; o segundo, “28 semanas depois”, quando o controle se rompe e a epidemia novamente se alastra (os Estados Unidos teriam controlado). Isso poderia ter dado certo, até porque não foi a proposta que invalidou o filme; mas o filme em si que se invalidou, com as seqüências de cenas despropositadas (como um filme pouco pensado, feito às pressas) e a falta de estilo do diretor que não soube prosseguir com o barco andando.
Está feito. Acho que lancei críticas suficientes, quando nem queria fazer isto no Trisco. Deixo por aqui, que já me aproveitei demais da liberdade de pecar contra os próprios princípios. Fica então a dica (o texto tem algum propósito além de criticar, vejam só): quem não assistiu ao Extermínio (28 Days Later) que inspirou essa “continuação”, pense em ver, é uma boa, muito boa pedida. Fez até alguém, a esta altura do campeonato da vida, acreditar em “continuações” (2, 3, a revanche) mesmo sabendo de toda lógica de mercado que cerca o cinema faz tempo. Ai minha santa inocência...
*Ah, e muita gente gostou dessa continuação, até mais que do primeiro, inclusive a crítica oficial... só para acrescentar.
Escrito por Patrícia Dourado às 12h48
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Aratuba é fim da linha
Aratuba não é cidade-passagem, não é caminho para canto nenhum a não ser para ela mesma. Ninguém tem de passar por lá para ir à outra cidade. Lá só chegam aqueles que realmente já tinham Aratuba como destino, a última cidade da serra.
Nem por isso se instalou nela uma comunidade hippie ou alternativa ou qualquer coisa assim, os moradores são idênticos aos de qualquer outra cidade do interior, os mesmo costumes: calçada, praça, igreja... Mas a cidade tem a peculiaridade de não ser uma cidade de interior macaqueada de grande cidade. Não tem aquela loucura de motos e feiras e armarinhos e bodegas por todo canto, comum ao Cariri, por exemplo. Também não se corrompeu como uma cidade serrana de veraneio, como Guaramiranga e outras do Maciço de Baturité e seus vários festivais nada locais, embora fique na mesma serra.
Aratuba tem seus funcionamentos próprios. Tem partidos de esquerda e direita, incomum a uma cidade tão pequena. Os estudantes participam das decisões, são pouco ouvidos (como em quase todo lugar), mas participam, são do contra, do partido de oposição ao prefeito (que, nem de longe, é um mau prefeito coronélico como os das outras cidades).
Os estudantes fazem barulho nas festas às sextas e aos sábados na praça da igreja (aos domingos, não. Guardam os domingos de festa). Descem as escadarias correndo, dançam, tocam violão, cantam, mas, curiosamente, (embora adolescentes) nenhuma gota de bebida nem trago de cigarro na boca. E não são poucos.
Alguns moradores têm as casas mais distantes do centro da cidade (pequeno centro) e, por isso, experimentam viagens quase todo dia, para ir à escola - os mais jovens. Já, à medida que vão envelhecendo, esses que moram mais longe pouco vão saindo dos limites verdes do sítio. Quando muito, para a missa de domingo, quando a saúde ainda permite. Por isso mesmo há uma ambulância 24h que fica estacionada na praça, lembrando que, a qualquer hora, um desses aratubenses mais antigos, moradores de sítios, podem passar mal. Nessa mesma praça, há também uma biblioteca pública, de onde, sentada na praça, podia ver a sobra das pessoas que liam lá dentro. Era mais uma peculiaridade.
Não há hotéis, apenas 2 hospedarias razoáveis (olho na telha, sem forro), para quem veio fazer algum trabalho na cidade ou motoristas de ônibus que sempre dormem no fim da linha dos trajetos. Foi numa dessas que fiquei.
Aratuba é fim da linha. E Fortaleza (2 ou 3 horas de lá, não mais) para eles é uma cidade bem longe, muitos nunca fizeram esse trajeto. E, pensando assim... por que fariam?
*Esse papo-furado todo tem um propósito, quero fazer um filme sobre Aratuba.
Escrito por Patrícia Dourado às 15h10
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LIRISMO: Se o mundo é só o lado de fora,
de que lado você está?
Não podemos matar o lirismo por inteiro, sob risco de morrermos juntos com ele também. Nos resta pensar novos lirismos e escapar do tédio das repetições.
A eterna insistência do eu-rei faz de todo lirismo uma possível farsa. Algumas charmosas (às vezes é charmoso falar de si), mas o lirismo, pelas próprias semelhanças entre os homens, sempre esteve às beiras com o piegas. Mas que graça teriam as coisas sem a visão dos líricos? Que graça mesmo teria a própria literatura? A música? Toda estória, verdade ou mentira... O lirismo tem seu charme e bem por isso nunca vai morrer. É parte humana como o próprio “eu” e escapa pelos lados quando nos movemos. Quando se produz, quando se expressa, há ainda mais possibilidade de transbordar “eus”. E esta é a questão: os “eus”.
Quantos “eus” saem de nós quando viramos o assunto do que dizemos? Quantos “eus” surgem ao sermos líricos? Falar de si não é afastar-se de si também? Perguntinhas difíceis que quase nos fazem dar uma resposta corrida e rápida. Mas não são perguntas para respostas. Pense no lirismo. Você é lírico? Já foi alguma vez? Já pegou um pedaço de qualquer coisa e se viu colocando nele coisas que achava que eram você? É um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor... A dor que deveras sente? É real o “eu” de que falamos dele? O “eu” que construímos... E que mundo é este em que o “eu” está?
A pena é cair numa criação imaginária de possibilidades de “eus” e de “mundos” alucinados. Nada a perder, não fosse a desmedida de todos esses mundos criados terem centro sempre num mesmo “eu”, como se o mundo inteiro existisse apenas como complemento de quem se expressa. Para onde vai isso? Que lirismo eu quero ver? Quero ver lirismos, disso eu sei. Mas qual... quais? Sant’anna certa vez (2003) criticou o “lirismo envergonhado”: Introduziu-se na poesia brasileira há algumas décadas a síndrome do lirismo envergonhado. É uma coisa assas estranha...
Mas mesmo nesse lirismo envergonhado, ainda há poesia, talvez a poesia do escondido... Há lirismo também na fuga do lirismo, de tanto que ele está por aí, de tanto que não é possível fugir dele. Perder o lirismo é morte, mas comedi-lo (se a outra opção for o excesso ridículo) pouco de mal há nisso; bem pelo contrário, há muito de bem em guardar do mundo as melhores coisas e saber dosar delas. O lirismo nunca abandona a fala do homem, tá sempre latinando por dentro. O lirismo avergonhado tem riquezas que só entendem aqueles que sabem brincar das brincadeiras mais demoradas. Quer dizer, queria pensar assim.
Mas, para tudo, é necessário ter estilo, o seu pode ser o do anverso, o da longura, o do romantismo suicida, nem vou contestar. Mas que já dá nos nervos a psicose do perdido no mundo, do cheio de dúvidas e carências e arrombos, ah dá. Somos também o que manipulamos ser, as nossas escolhas por não-ser também são partes de nós. Todos os segredos que guardamos são também pedaços nossos e, mais ainda, somos esses pedaços, porque os guardamos.
Todo mundo sempre vai sentir coisas novas, nem que seja uma nova sensação de atravessar o velho, de ver o velho querer se repetir diferente, transmutado, corrompido. Então como fazer isso?
Deu vontade de se expressar? (o texto até parece ter saído com tom de chamado ao lirismo, apesar das críticas). Pois faça isso. Portas-abertas! Mesmo o envergonhado...
Escrito por Patrícia Dourado às 01h25
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ARTE POP: Quantas porções de arte, para quantas
porções de pop
Ainda é confuso juntar duas palavras como “arte” e “pop”. Falo “ainda”, porque isso não é nem mesmo produto do nosso tempo. Estamos mais para um tempo de “esgotamento” dessa prática (se a intenção é fazer algo novo), do que de invenção por esse caminho. Mas, mesmo assim, o assunto ainda dá pano para algumas discussões.
A “Arte Pop” já está bem além da “Pop Art” do american way of life do fim da década de 50. O gancho com o texto “Marie Antoinette de Sofia” cabe bem, por nele esses elementos de fato ainda inovarem a perspectiva do filme; mesmo em um momento em que juntar elementos comerciais a elementos artísticos já não é mais exatamente uma novidade. O peculiar nesse caso surge da mistura desses elementos com outro tipo de mito, o histórico, e da possibilidade de jogar com as expectativas de quem está assistindo ao filme.
Enquanto na “Pop Art” de Andy Warhol ele misturava esses elementos com figuras de mitos criados pela mídia, como Marilyn Monroe; Sofia Coppola colocou suas cores pops em um outro tempo, quebrando as expectativas desses elementos e possibilitando o jogo de como a sociedade inventa mitos e personagens a todo momento.
Uma questão interessante da "Arte Pop" hoje é que, diferente do que aconteceu na “Pop Art” das décadas de 50 e 60, agora não é mais a arte que quer se popularizar, usando elementos da publicidade e da mídia para isso, mas o contrário: as mídias de propaganda que têm aspirado ao status de arte, num intento audacioso de expandir ainda mais os conceitos já delicados do que é arte. Isso fica exemplificado na figura dos publicitários hoje, por exemplo. Volta e meia, encarados como artistas bem dotados e, por vezes, contratados pela indústria do cinema para cuidar exatamente da direção de arte dos filmes. Outro exemplo disso são as cerimônias de entrega de prêmios anuais de publicidade, das quais os trabalhos vencedores têm saído com um certo prestígio de obras de arte.
Não estou puxando o cordão da crítica aos publicitários, mas, se é pra falar de “Arte Pop” hoje, não há como não fazer essa distinção e não lembrar o caminho que ela está tomando agora. A publicidade sempre se dedicou à sedução e ao apelo visual, mas nunca esteve tão bem preparada para isso, tomando emprestadas nessa tendência as experiências e o prestígio da arte. Uma conseqüência boa é a chuvarada de boa imagem que nos cai aos olhos quando o assunto é propaganda. Mas, por outro lado, há a questão do excesso, e o excesso corrompe sempre. A imagem é bonitinha, mas já são muitas, a todo momento e em tudo, e isso desgasta a tudo globalmente também.
Esse jogo “arte” e “pop” tem virado então uma gangorra de pesinhos. Se pesar a mão para um lado, será Pop; para outro, Arte. Artista então vai ser aquele que conseguir pesar bem a mão para a arte, sabendo aproveitar os recursos da cultura pop também (a seu tempo); e “profissional inventivo” (um recurso para não chamar de artista o publicitário) vai ser aquele que melhor souber usar os elementos da arte da imagem para desenvolver a personalidade visual do produto. Um exemplo disso é a imagem de um calendário promocional italiano da Coca-cola, em que o publicitário substituiu a imagem da Monalisa no quadro pela imagem de uma coca-cola.
Sem eximir o Pop de nada, os elementos pops estão aí e vão além de docinhos bem embalados, são marcas sociais e culturais de uma vida de consumo, e que, por sua plasticidade, podem assumir características antes específicas das artes. Mas isso é só uma capa de proteção, são de fato para consumo e resta bem mais a quem consome do que a quem produz não se saturar desses docinhos.
Escrito por patrícia dourado às 00h12
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MARIE ANTOINETTE DE SOFIA
Marie Antoinette de Sofia caiu na polêmica, para não cair no historicismo. A audácia da diretora foi humanizar a rainha francesa como quis. Há duas biografias correntes e ela escolheu exatamente a mais polêmica para inspirar o filme. A juventude criativa de Sofia é uma prova (entre várias outras) de que a mídia e a arte estão convergindo. É dessa mesma conversão que advém uma outra polêmica insistente: a da dita “arte pop”.
A audácia por misturar “cultura pop” e arte foi ainda mais além quando Sofia escolheu para cenário não uma cidade entupida de letreiros publicitários, mas a corte real francesa do século XVIII, em toda sua futilidade e desligamento, que culminaram na famosíssima e quase mítica Revolução Francesa. Fazer isso entre personagens historicamente conhecidos e em um tempo distinto do nosso, em que se dá a “arte pop” já sob críticas, é aumentar ainda mais a polêmica sobre o que está sendo feito.
Os franceses que gostaram do filme protegeram a licença artística de Sofia e julgaram seu filme pela obra de arte que é, a partir do ponto de vista que a diretora escolheu. Tanto o foi, que o filme recebeu Prêmio de Cinema do Sistema Educacional Francês e a nomeação à Palma de Ouro em Cannes. Mas, por outro lado, foi vaiado em sua primeira projeção, na sessão para jornalistas, durante o mesmo festival.
Sofia deixou de fora muita coisa que queria ser vista pelo público que ansiava a personagem histórica. Eles queriam, por exemplo, ver “o povo”, mas “o povo” no filme de Sofia era apenas um barulho de multidão mudando a rotina de Antoinette. O mundo novo que se desenvolveu para ela depois do casamento foi um mundo interior (interior no sentido de “íntimo”) e, neste mundo interior, não cabiam noções como “povo” nem “nação”. Os pensamentos dela eram outros e isso não a fazia má, mas alheia; seu pecado foi ser uma alheia de “sangue real”. Não há perdão popular para uma rainha estrangeira de 18 anos em um país como a França, principalmente quando este país está explodindo de fome.
Apesar de não se prender à história, o filme não quis abrir mão da pompa de ser um filme de época e ganhou vários prêmios de maquiagem, cabelo, guarda-roupa e direção de arte. Mesmo com o episódio do all star lá em meio aos sapatos do guarda-roupa real - uma licença poética (como lembrou bem um amigo). Nessa mesma linha, Sofia escolheu usar, além de música clássica, uma trilha rock e isso deixou uma simbologia muito forte a respeito da perenidade dos sentimentos adolescentes, a qualquer época. Ela comunica essa sensação várias vezes e é uma das coisas mais fortes do filme.
Mas foi criticada por isso também. Alguns estranharam ver a rainha francesa com ar de “virgem suicida”, ressaltando aqui que Kirsten Dunst não foi escolhida por acaso. Ela remete ao primeiro filme da diretora, As Virgens Suicidas (1999), seria muito inocente pensar que não. Marie Antoinette (2006) seria exatamente o 2º filme de Sofia e teria saído antes de Encontros e Desencontros (2003), não fosse pela dificuldade com a pesquisa histórica e a quantidade de personagens.
Como vêem, descaradamente, protegi o filme, nada imparcial este textinho! Isso porque, no meio de polêmicas (e Marie Antoinette levantou mesmo polêmicas), temos de ficar de algum lado, não acham? Esse é o meu.
Escrito por patrícia dourado às 21h40
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TRISCO
A função deste trisco é ter textos reunidos e ter, de quebra, alguém com rosto azul de tela de computador pra ler. Falar de tudo é o lema, mas só o tudo que me interessar. Vou escrever tudo pequeno também, porque agora é tempo dos condensados.
Nada de sagas nem epopéias!
É só um trisco, hum?
Escrito por patrícia dourado às 09h46
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Perfil

Patrícia Dourado, 24 anos.
Apresentação do trisco
O trisco não é um diário, é um cantinho para textos.
A função é reunir textos e ter, de quebra, alguém com rosto azul de tela de computador para ler. Falar de tudo é o lema, mas só o tudo que me interessar. Se escapulir coisa de diário, é porque todo texto fada ao autoral mesmo.
Os assuntos daqui talvez dessem pano para muito mais manga, mas, como o veículo é a internet e não é nada profissional, o melhor é ficar tudo no condensado mesmo, um trisco.
Mesmo sendo o intento escrever de tudo, esse tudo talvez teime em ir para assuntos de Cinema. A sorte é que Cinema sempre envolve outros mil assuntos. Então, vamos lá, que seja divertido!
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